Benedita, esse raio vívido.

Viver no paraíso deve ser algo que se assemelhe a caminhar ao lado de Benedita.

Estamos nos aproximando da reta final de uma campanha difícil. Tenho, sortuda que sou, muitas histórias para contar ao lado de Benedita — não só desta campanha, como de todas aquelas das quais participei ao lado da faraônica.

Mas vamos nos fixar neste registro.

Depois de dias e dias chovendo, o Sol deu as caras aqui no Rio. Como não somos dessas de perder a oportunidade de fazer carreata com o calor torando na nossa caixola, lá fomos nós, leves, contentes e pleníssimas de esperança, fazer o L em cima do carro.

A largada foi dada em uma rua cheia de quiosques que vendiam peixe frito e outras iguarias.

Benedita subiu no carro em uma pernada só. Eu, logo atrás, precisei de uma certa ajuda, porque sou uma senhora de 53 anos e não uma jovem de 84.

Sem ter almoçado ainda e lá pelas duas da tarde, quando a carreata começou a andar, Benedita sorria como aquelas que lideram em todas as pesquisas para o Senado.

Eu, que nem tive tempo de tomar café, acompanhava Benedita como aqueles que sabem seguir uma líder.

Em determinado momento, alguém na rua fez um sinal nada simpático para a gente, que ouvia o rap do Silva fazendo o L com gosto.

Quando isso acontece, a dizer, quando uma pessoa é agressiva comigo pelo fato de me ver com a camisa do Lula, um misto de sentimentos invade minha alma vermelha.

Tenho um lado que vem forte nessas horas. Não sou de levar desaforo para casa e possuo uma certa desenvoltura para me defender. Mas tenho também o lado professora, figura pública que precisa dar o exemplo e, com a graça das deusas menopausadas, esse lado fala mais alto na maioria das vezes. Sorrio e faço um coração com as mãos para a pessoa que me ofende, desejo boa sorte e sigo acenando para o povo, firme, forte, toda impávida colossa.

Perguntei para Benedita — quando o sinal fechou e o barulho do vento em nossos ouvidos diminuiu — o que ela pensa quando alguém não a trata com respeito.

Benedita olhou para mim e fez uma cara de preocupada, como quem está elaborando uma resposta.

Depois, mudou o semblante e me falou:

“Eu, exatamente agora, Elika, olhei para ele e só pensei no peixe frito. Ah, que vontade de comer um peixinho frito!”

Rimos muito, e o registro foi feito.

A carreata terminou.

Benedita, esse raio vívido, fez um discurso potente, com o coração cheio e, ainda, o estômago vazio. Falou para todas as pessoas que a esperavam no fim da carreata sobre a importância de eleger Lula, a necessidade urgente de mudar a cara do Congresso e a importância de colocar uma professora na Alerj. Para quem não sabe — não sei explicar isso sem me sentir divônica —, sou professora e quero seguir trabalhando na Alerj. Quase morri ouvindo isso da Benedita.

Dito isso, depois de empolgar geral, lá foi Benedita da Silva, gigante pela própria natureza, correndo para outra agenda.

Que o futuro espelhe a grandeza de Benedita. O Brasil ficará maior com a força, o foco, a alegria e toda a capacidade intelectual desta mulher no Senado.

Um sonho intenso de amor e esperança à terra desce quando estamos ao lado de Benedita da Silva.

Daniel Vorcaro e a nossa Democracia

O caso Daniel Vorcaro pode ser lido como algo maior do que um escândalo bancário: ele funciona como um estudo de caso sobre a transformação de poder econômico em poder político. O aspecto mais perturbador não é simplesmente descobrir se determinado político, ministro ou empresário cometeu um crime e sim perceber a possibilidade de que uma pessoa sem receber um único voto consiga adquirir uma capacidade de acesso às instituições que milhões de cidadãos jamais terão.

Essa distinção acima apontada é fundamental porque uma democracia pode continuar realizando eleições e, ao mesmo tempo, tornar-se profundamente desigual na distribuição do poder político.

Vem refletir comigo:

Cidadãos possuem o mesmo voto, concordam? Independente de quanto você ganha, você vota uma vez como qualquer outra pessoa. Porém, alguns possuem capacidade incomparavelmente maior de influenciar aquilo que acontece entre uma eleição e outra, ou seja, temos igualdade eleitoral convivendo com desigualdade política.

Sabemos que dinheiro financia campanhas, think tanks, organizações, mídia, acesso e produção de influência. Isso não significa literalmente comprar votos. Essa influência é muito mais sofisticada e complexa.

Imagine dois cidadãos:

Um trabalhador discorda de uma decisão do governo. O que ele pode fazer? Escrever para o parlamentar, protestar, votar, participar de uma associação.

Um agente econômico extremamente rico pode fazer tudo isso e, adicionalmente, contratar os melhores escritórios de advocacia e consultorias do país, patrocinar eventos frequentados pelas elites, contratar pessoas conectadas ao poder, financiar organizações, reunir-se privadamente com autoridades, contratar familiares ou pessoas pertencentes às redes das autoridades, acessar parlamentares, governadores e ministros e produzir relações permanentes com centros decisórios.

Ambos possuem um voto, mas não possuem o mesmo poder político, percebem?

Uma curiosidade: o Banco Master era pequeno em relação ao sistema financeiro brasileiro. Segundo o próprio Banco Central, o conglomerado representava apenas 0,57% dos ativos e 0,55% das captações do Sistema Financeiro Nacional quando sua liquidação foi decretada em novembro de 2025. O BC justificou a intervenção por grave crise de liquidez, comprometimento econômico-financeiro e “graves violações” das normas do sistema financeiro.

Perceba a desproporção:
Um banco com menos de 1% do sistema financeiro conseguiu produzir uma crise política que alcançou Congresso, governos estaduais, Banco Central, Polícia Federal, Ministério Público e Supremo Tribunal Federal.

Como um empresário consegue acumular tamanha centralidade política sem jamais ocupar um cargo eletivo?

Estamos vendo com o caso Vorcaro que oligarquia e democracia podem coexistir. Não é necessário que o milionário vire presidente, governador ou deputado para influenciar todo o sistema. O milionário pode continuar fora do Estado e atuar diretamente nele.

O poder oligárquico surge quando a concentração excepcional de riqueza concede a determinadas pessoas recursos materiais radicalmente superiores aos disponíveis aos demais cidadãos, permitindo-lhes exercer influência política desproporcional.

O oligarca moderno não precisa sentar no trono, ele pode sentar à mesa de quem decide. E Vorcaro mostra que não estou falando besteira.

O político possui poder formal e responsabilidade pública. O grande agente econômico possui poder informal sem responsabilidade eleitoral equivalente. E esse poder informal é especialmente difícil de controlar democraticamente.

Elites econômicas conseguem exercer influência política muito superior à influência isolada do cidadão médio porque, por exemplo, um empresário extremamente rico pode financiar uma infraestrutura permanente de influência:advogados, lobistas, economistas, relações institucionais, assessores, consultores, comunicação, pesquisa, eventos e relações públicas.

E isso é crime? É eticamente duvidoso, mas nem tudo é crime. Jantar com um político crime? Não. Esse contrato é crime? Pode não ser. Conhecer um ministro é crime? Evidentemente não. Patrocinar um evento é crime? Não. Conversar com um governador? Não.

Mas temos um problema:

Quando centenas de relações aparentemente independentes formam uma infraestrutura de acesso extremamente desigual, o problema democrático pode existir mesmo antes de aparecer um crime comprovado.

Quando pensamos em ameaça à democracia, pensamos imediatamente em golpe: tanques, invasão de Poder, cancelamento de eleições ou ditadura.

Mas existe outro processo, muito mais silencioso: As instituições continuam funcionando, o eleitor continua votando, os deputados continuam legislando e  os tribunais continuam julgando mas, determinadas pessoas passam a possuir muito mais capacidade de influenciar essas instituições do que outras.

Esse é o exemplo de que a democracia formal pode conviver com uma espécie de oligarquização material. Ou seja: oligarquia não é incompatível com eleições democráticas.

Estamos vendo pelo mundo que quem possui grande poder econômico consegue influenciar as regras que determinam como o próprio poder econômico será regulado. Ou seja, é o jogador ganhando influência sobre o árbitro, sobre o campeonato e eventualmente sobre as regras do jogo.

Instituições democráticas precisam ser e serem percebidas como imparciais porque quando as pessoas acreditam que “todo mundo lá em cima está combinado”, tornam-se mais receptivas a candidatos que prometem: “Vou destruir tudo isso.” Esse processo é perigosíssimo e é o que estamos vivendo em 2026.

Quando falamos do risco de termos hoje milionários e bilionários circulando entre nós é porque sabemos que uma pessoa que tem muitos dinheiros, ainda que não seja político, pode exercer muito poder.

Como dizem, é sobre isso.

Crime Organizado

Estava conversando comentando uma notícia de crime organizado com postos de combustíveis, políticos, milícia, polícia federal… e a pessoa que estava ao meu lado não estava entendendo nada porque a imagem que ela associava quando ouvia falar em crime organizado no Rio de Janeiro é fuzil, guerra, favela, tráfico… 

Se você também não entende a conexão entre tudo isso, fique nessa posição comigo que vou te explicar enquanto a gente fortalece o abdômen.

Imagine que você tenha uma barraquinha de cachorro-quente. Daí, você vende 20 cachorros-quentes por dia. Cada um custa 10 reais. No fim do dia, você faturou… 20 vezes 10… R$ 200. Confere? Até aqui, tudo certo. Agora imagine que uma pessoa apareça com 100 reais em dinheiro vivo que conseguiu de forma ilícita: roubando ou vendendo algum produto proibido. Daí a pessoa pede

‘Coloca esse dinheiro junto do seu caixa e diz que você vendeu mais dez cachorros-quentes.’

Percebem o que aconteceu? Na realidade, você vendeu vinte. No papel, você diz que vendeu trinta.

Aqueles 100 reais que vieram de uma origem ilegal passaram a parecer resultado da venda de comida. Isso é uma forma simplificada de lavagem de dinheiro.

Agora vamos aumentar um pouquinho. Em vez de uma barraquinha, pensem em um restaurante. Ele recebe centenas de clientes por dia. Quem vai conseguir provar se, naquela terça-feira, entraram 287 clientes ou 314? 

Já ficou mais difícil, confere?

Agora aumentem de novo. Pensem em um supermercado. São milhares de produtos. Centenas de pagamentos. Dezenas de fornecedores. Milhares de notas fiscais. Quanto maior o negócio, mais difícil é enxergar uma pequena fraude no meio de tantas operações.

Agora chegamos ao posto de combustível. Um único posto pode vender dezenas de milhares de litros por mês. Recebe dinheiro em espécie, Pix, cartão.

Compra combustível, vende combustível, paga fornecedores e funcionários e emite milhares de notas fiscais.

É um negócio ideal para quem é corrupto e precisa misturar dinheiro verdadeiro com dinheiro de origem criminosa.

Mas o crime organizado não parou por aí porque a ganância, minha gente, ela é infinita para muita gente que raciocina nessa linha:

Se eu já tenho um posto, por que apenas esconder dinheiro? Por que não ganhar ainda mais dinheiro?

Então começam outros crimes. Declaram vender mais combustível do que venderam. 

Ou menos, para pagar menos imposto. 

Adulteram combustível. Criam empresas de fachada. Abrem transportadoras que existem apenas no papel. Colocam ‘laranjas’ como proprietários. O dinheiro passa por cinco ou seis empresas diferentes. Quando chega ao destino final, parece completamente limpo.

Agora vem a pergunta mais importante. Se estamos falando de milhões de reais, quem fiscaliza tudo isso?

Receita. Polícia. Ministério Público. Secretarias de Fazenda. Agência Nacional do Petróleo, a ANP… Cada uma dessas instituições pode interromper esse esquema. 

E é justamente por isso que organizações criminosas passam a ter interesse em influenciar quem fiscaliza esses negócios porque, por exemplo:

um fiscal honesto pode fechar um posto, um delegado pode abrir um inquérito, um promotor pode denunciar e um agente da Receita pode descobrir uma fraude.

É nesse momento que o crime organizado deixa de ser apenas um problema de polícia e passa a buscar influência sobre o Estado.

Em alguns casos investigados pela Justiça brasileira, isso ocorre por meio de corrupção, compra de proteção, financiamento ilícito de campanhas, indicação de pessoas para cargos estratégicos ou outras formas de captura das instituições públicas.

Entendem que quando conseguem corromper agentes públicos ou influenciar decisões do Estado, tornam muito mais difícil que todo esse esquema seja descoberto?

É por isso que hoje o crime organizado não pode ser entendido apenas olhando para um homem armado com um fuzil. Muitas vezes, o verdadeiro poder está em quem controla o caixa, o CNPJ, a bomba de combustível e tenta fazer com que ninguém fiscalize o que acontece ali.

Além disso, a alta circulação de dinheiro, a complexidade tributária e a possibilidade de fraudes tornam o setor especialmente atraente para organizações criminosas.

Não sem motivo, nos últimos meses foram presos muitos políticos, um desembargador federal, um delegado da PF, empresários, policiais e bicheiros. Tudo faz parte de uma mudança na estratégia de combate ao crime organizado.

O fuzil continua existindo. Só deixou de ser o centro do negócio. O verdadeiro poder está no fluxo do dinheiro.

Em abril de 2025, o STF mudou essa lógica ao julgar a ADPF 635. Além de discutir as operações policiais, o Supremo determinou que a Polícia Federal abrisse um inquérito permanente para identificar como é que funcionam as organizações criminosas no Rio, quem manda, quem financia, quem protege e como o dinheiro circula. Também determinou prioridade máxima para as informações do COAF, da Receita Federal e da Fazenda Estadual. 

Aí invés de correr só atrás do criminoso armado, o foco, agora,  passou a cair também em desmontar toda a engrenagem que mantém o crime organizado funcionando. 

Pela primeira vez em muito tempo as investigações parecem atacar os três pilares do crime organizado de uma só vez: o braço armado (facções e milícias), o braço econômico (combustíveis, contrabando, lavagem de dinheiro, jogo do bicho) e o braço institucional (agentes públicos, autoridades e políticos) que segundo as investigações garantiriam proteção e informação aos esquemas. 

Para resolver o problema do Rio de Janeiro, as forças investigativas não podem estar todas aqui, entende? Tem que vir mesmo gente de fora para investigar conduzida pela Polícia Federal.

Espero ter ajudado.

Envelhecer ou El Niño?

Muitos vídeos estão aparecendo para mim de mulheres falando sobre o envelhecimento. Algumas filosofam, outras metem um papo reto, há quem diga que está tudo bem, tem as que falam sobre o inferno na terra que é a menopausa…  mas todas apontam que o mais difícil é lidar com a sociedade que nos olha como se o tempo tivesse passado somente para nós.

Fazemos parte da primeira geração da história que precisa focar no El Niño, mas que fica fazendo conteúdo sobre as mulheres envelhecendo.

Para essa galera que só posta fotos com filtros, envelhecer virou sinônimo de fracasso pessoal.

“Cara de cansada. Não se cuida. Tá largada. Bagulhou.”

Falam isso de uma mulher como se a terra girando fosse um problema de gestão individual e não um fenômeno que acontece para todas as pessoas.

Particularmente, estou de saco cheio como muitas mulheres da minha idade. Lá se foram 50 anos dizendo como devo me vestir e sentar. Não vou aceitar que os próximos 50 sejam assim.

Envelhecer naturalmente é considerado falta de disciplina apenas para mulheres, vale observar.

E trago verdades: por mais que você gaste dinheiro, o seu corpo vai mudar, o colágeno vai embora e você vai ter que fazer sim agachamentos e muitos exercícios físicos se quiser ter a perna forte, saúde em dia e zero dor quando chegar no climatério.

Se tudo correr bem na sua vida, você vai ver seu rosto criando rugas, sua bochecha caindo, seus cabelos mudando a textura e a cor e essa será a sua maior perspectiva de sucesso porque diferente disso é a morte precoce.

A publicidade vende produtos “anti-idade”. A medicina estética cresce.
As redes sociais filtram rostos. Mas ninguém vai conseguir interromper o tempo. Criamos um mercado gigantesco para combater algo inevitável.

A juventude feminina é algo maravilhoso, mas associar a maturidade e a velhice como sinônimos de perdas é algo cultural e perverso de nossa sociedade.

Talvez esses vídeos sobre envelhecimento estejam aparecendo porque o algoritmo percebeu minha idade. Mas eles também revelam outra coisa: existe uma geração inteira de mulheres chegando aos 50, aos 60 anos, que está sentindo necessidade de explicar o óbvio: envelhecemos.

Jovens, venho do futuro contar para vocês que seguimos nos divertindo, namorando, quem é de beber tá bebendo, quem é de dançar tá dando mortal, quem é de viajar tá pulando de paraquedas, e tem quem estava com a libido baixa achando que era menopausa e achou macho decente e tá metralhando óvulos por onde passa.

Há felicidade para quem prefere o absurdo de envelhecer se divertindo do que o absurdo de não envelhecer.

Aprender a desprezar o que não depende de nós é um tipo de liberdade que sugiro que pratiquem.



Linha direta Lula e Trump

O telefone tocou no Planalto.

Do outro lado, Donald Trump — o homem das fake news em escala industrial, o bilionário que construiu muros, gritou contra imigrantes e transformou o “América primeiro” em um grito de isolamento e fez da raiva um intrumento de política pública.

O operário que virou presidente, o homem das pontes, dos abraços e do diálogo, atendeu.

De repente, não mais que de repente, o americano que queria isolar o mundo estava batendo papo com o brasileiro que insiste em diálogos. E o improvável virou protocolo.

Não falaram sobre Bolsonaro, tornozeleira eletrônica e nem Anistia. Conversaram sobre uma coisa mais urgente que diz respeito às duas nações: economia.

Trump queria falar de comércio. Parece que as coisas não andam tão bem por lá e bateu desespero. Lula foi sincero e, na minha cabeça, ele respondeu cantando à La Chico: “Pois é, companheiro Trump. Muita careta pra engolir a transação e a gente tá engolindo cada sapo no caminho e a gente vai se amando que também sem um carinho. Ninguém segura esse rojão.”

Daí, a seguir, Lula aproveitou para lembrar que o Brasil é um dos três países do G20 com quem os Estados Unidos mantêm superávit na balança de bens e serviços e para pedir o fim da sobretaxa de 40% que sufoca os produtos brasileiros. Dito em bom português, negociou o tarifaço.

Dois homens que simbolizam lados opostos do planeta político conseguiram, enfim, dialogar como Lula sempre afirmou ser necessário. Não para concordar — mas para negociar.  Eram dois modos de ver o planeta dividindo a mesma linha telefônica. O que governa pelo medo ouviu quem insiste em governar pela esperança.

Lula não abaixou a cabeça mantendo a sua tradição de mostrar que somos soberanos.

Nesta ligação como em todos os outros diálogos com diversos presidentes, o complexo de viralatas não teve vez. Pelo contrário, nosso Caramelo mostrou para a águia como se voa.

A conversa foi amistosa, com ambos relembrando a boa química de encontros anteriores. O contato é visto como um passo para restaurar as relações históricas entre os dois países.

Linha direta agora, meu povo. Eduardo Bolsonaro perdeu. Não adiantou trabalhar contra o Brasil e espalhar mentiras. Daqui a pouco, teremos encontro pessoal em breve para acertarem o fim do tarifaço e das sanções contra autoridades brasileiras.

Deve ser muito difícil odiar Lula, viu.

Texto de Elika Takimoto

O Caramelo e a Águia

Vamos ver se vocês conseguem identificar cada bicho dessa fábula que inventei para explicar para crianças um pouco sobre a nossa conjuntura. No final, quero que você me fale se concordou com a moral da história e se tiver outra melhor, só escrever nos comentários.

Era uma vez um reino gigante cheio de bichos diferentes. Esse reino havia sido governado por um Galo que, ao estar no poder, só melhorou a vida do seu galinheiro.

O pintinho pequenininho, deste tamaninho, filho do Galo, vivia ciscando e ameaçando o Vira Lata Caramelo – que sucedeu aquele Galo nesse imenso reino.

O pintinho não piava fazendo “piu piu” e sim “pai pai pai”.

O Caramelo não falava inglês e era incapaz de dizer “yes, sir!”. Porém, conversava com todos os bichos. Ele entendia os miados, respondia aos mugidos, respeitava os uivos, compreendia até os relinchos e os zurros. O Caramelo conhecia as ruas daquele reino como ninguém.

E o mais importante: o Caramelo farejava bem.

O Caramelo deu condições para que os Joões de Barro construíssem as suas casas, os Tatus, as suas tocas e as abelhas, as suas colméias. As cigarras cantavam, as vacas tinham pastos mais verdes e os pássaros voavam em um céu mais limpo depois que o Caramelo assumiu aquele reino.

Mas o Galo não se conformava com aquela alegria toda. Ele achava que iria reinar para sempre mesmo não respeitando as Corujas, os Pavões, as Cobras, as Capivaras e tantas outras espécies quando se viu Rei.

Inconformado, o Galo elaborou um plano para matar o Caramelo. O Corvo, quando descobriu a intenção do Galo, achou aquilo um absurdo. Com o poder a ele dado na ordem daquele reino, o Corvo não admitiu tamanha maldade.

O Corvo, então, começou a analisar o Galo bem de perto a ponto de limitar a hora do Galo voltar para o galinheiro. O Galo passou a ter um esporão.

O pintinho pequeninho resolveu pedir ajuda para uma Mosca da fruta que se vestia de Águia e reinava em um Império distante.

O pintinho falou para a Mosca: pai pai pai. E a Mosca entendeu que Corvo estava tirando a liberdade daquele reino, outrora governado pelo Galo.

A Mosca que vivia em outro reino cujos bichos que lá moravam precisavam comer coisas que não eram produzidas naquele lugar, ouvindo o pintinho pequenininho, tomou uma atitude:

“Avisa ao Corvo que se ele não deixar o Galo fazer o que bem entender, eu não vou querer mais nenhuma fruta do reino do Caramelo!”

 A bicharada do reino do Caramelo ficou tensa, as formigas e as abelhas que tanto trabalham começaram e pensar no que fariam da vida.

A bicharada do Reino da Águia também se desesperou porque gostava de comer o que as abelhas e formigas – do reino do Caramelo – produziam.

O Caramelo acalmou a bicharada e disse que até o gado iria continuar pastando naquele reino.

O Caramelo prometeu cuidar de todo mundo.

O pintinho, o nepo Galo, não satisfeito, pediu para a Mosca, então, derrubar uma árvore gigante onde moravam outros Corvos e que era fundamental para levar sombra e controlar a temperatura de todo o reino do Caramelo. 

A Mosca topou e mandou cortar a árvore.

O que a Mosca, o Pintinho e o Galo não contavam é que aquele tronco e as raízes das árvores do Reino do Caramelo eram muito sólidas e profundas.

Não seria qualquer serra.

E mais duas coisas surpreendentes aconteceram: As vacas, que conviviam bem com as galinhas do Galo, começaram a pastar longe daquele galinheiro. Outros galos começaram a refletir e passaram a educar melhor os seus pintinhos.

Moral da história: 

Nem todo gado aplaude quem lhe tira o pasto. Nem todo Caramelo tem Complexo de Vira Latas. Nem todo Galo que tem pintinho governa só para seu galinheiro.

Pari uma banda

Fui chamada a atenção aqui no privado por uma pessoa de bom coração. Ela disse que fica feio uma mulher como eu ficar falando que pariu uma banda. Falo sempre isso: “Pari uma banda”.

Digo com orgulho e mais um tanto de sentimentos que têm as pessoas cujo útero é uma espécie de camarim.

Pedi sugestões e ela: “fala que você deu a luz a uma banda e ainda pode brincar com esse negócio de luz no palco e bababá bububú.”

Daí, fiquei reflexiva. Nunca tinha pensado que essa palavra poderia gerar desconforto a ponto de sugerirem que eu parasse de usá-la.

Me ensaiei falando: “dar a luz a três artistas”…

Não…

Não traduz o que sinto quando falo “Pari uma banda”.

Comecei a refletir por que a pessoa achou feio, rude,  grosseiro e se sentiu desconfortável ouvindo uma pessoa que ela admira falando que pariu.

Há palavras mais elegantes, ela continuou: “dar à luz, gerar, trazer ao mundo… Parir, não. Parir parece coisa de bicho”.

Quando ela falou isso, gostei mais ainda. Gosto tanto de bichos que nem consigo comê-los. Não me acho melhor do que eles. Me comparar a uma vaca, para mim, é elogio.

Parir é forte. É verbo sem maquiagem. “Dar à luz” você imagina hospital, marido ao lado segurando a sua mão… epidural que é uma anestesia local para aliviar dor.

Parir, não. Parir é primitivo. Imagino uma mulher na beira do rio, ou no hospital sem celular para registrar,  parindo na cama que dorme, ouço o grito que dá a pessoa que põe gente no mundo, tem sangue, outra mulher ajudando,…  Parir é uma batalha vencida por dentro. Uma não, várias.

Parir, ainda que não seja sempre assim, parir é, talvez, o único ato em que uma pessoa sangra por amor e não porque foi ferida.

Quem sabe seja por isso que assuste tanto. Porque parir é verbo que exige coragem até para ser dito. É biológico, animal, é sangue com neném, é lambeção de cria logo depois.

Parir é poder demais para um verbo só. Ele não apenas nomeia um ato, ele entrega o protagonismo: quem pare, mete medo. Exige respeito.

Não existe parto sem que forças do além estejam envolvidas e só essa pessoa sabe o que passou quando pariu.

Dar a luz não. É coletivo. Todo mundo sabe como foi. Tem foto feita na hora que a luz foi dada. 

Mas olha… receba essa informação: Todo mundo foi parido –  ainda que isso seja esquisito aceitar. Vou te contar uma verdade: A sua mãe te pariu. E isso não é ofensa. Isso quer dizer que houve uma história para você ter vindo ao mundo. Houve um ovo em que você esteve dentro. Esse ovo foi protegido, aninhado, ou não. Mas todo mundo aqui esteve dentro de um ovo.

Peço perdão para quem se incomode, mas entre “dar à luz para três artistas” e “pari uma banda”, fico com a segunda porque nunca vi ninguém parir sem medo e, ao mesmo tempo, sem força. Nunca vi ninguém parir em silêncio.

E quando eu falo que foi um parto, saibam que no dia em que, individualmente, pari cada componente desta banda, fiz isso sem marido para segurar a minha mão, com um medo e uma ansiedade que jamais tive igual.

Mas ao mesmo tempo…

Mas ao mesmo tempo com a certeza de que o mundo seria melhor depois daquilo que estava passando e eu ia provar isso.

Se hoje vejo gente – muita gente e cada vez mais gente – se emocionando com Hideo, Nara e Yuki no palco foi porque eu pari essa banda.

Pari sim. Fui eu.

Esse sentimento ninguém vai me tirar.

Não há palavra que chegue mais perto disso do que o verbo que considero visceral: parir.

Estou reflexiva, mas seguirei do mesmo jeito me sentindo fêmea, rainha e mitológica.

Adianto: também sei rosnar e coçar a orelha com a pata de trás.

Pipo

Hoje, meu amor faz aniversário e consegui passar esse dia com ele.

Não preciso do Pipo para absolutamente nada, mas amo ter a presença dele em tudo.

A matemática da vida, vejam vocês, não tem a mesma lógica das quatro operações.

Eu, completa como um transatlântico e livre no mar, atraquei-me em um porto mesmo tendo feito qualquer âncora virar pó há tempos em minha vida.

Andando inteira pelo mundo, deparei-me com alguém que fez um quarto ser meu paraíso. Não me dividi, mas dupliquei-me e hoje, para sermos um, juntamos nossas quatro partes.

Pipo fez meu corpo entender para que servem os fogos de artifício nas festas de Réveillon.

Outro dia, estávamos conversando sobre como me incomoda usar o pronome possessivo para se referir a alguém com a qual convivemos.

Meu marido. Minha esposa. Minha mulher. Meu namorado… Sei lá. Parece marcação de território.

Relacionamento saudável não pode ter como símbolo um cadeado. Assim penso eu.

Daí, Pipo falou que se refere a mim sempre como “meu amor” porque, ainda que eu faça o que bem entender com a minha vida, ele seguirá me amando do mesmo jeito.

Portanto, o amor é dele e eu sou do mundo.

Ovulei no climatério quando ouvi isso.

Ok…

Mas, na conexão que foi feita e consolidada após o primeiro beijo, constatei uma forma de existir parecida com o que acontece quando decompomos a luz branca em um espectro de várias cores.

Isso posto e com a alma em festa:

Parabéns, meu amor. O que sinto por você é da mesma natureza do que sente a águia quando busca as alturas. Ela é livre, mas para viver sua essência, precisa estar no ar.

Sigo ao seu lado, presidente.

Presidente, todas as vezes que me encontro com você sinto um tipo de alegria ainda não nomeada.

Não é algo como ver um filho passar para uma universidade. Nem ganhar um carro em um sorteio. É uma coisa que tem a ver, de alguma forma, com o tempo.

Sensação boa que chega com imagens de tudo que já lhe vi passar, que vem com a riqueza do nosso presente e como se eu estivesse grávida de Brasis. Como lhe disse, não dá para nomear o que sequer tenho capacidade para explicar.

Hoje vi você na inauguração dos leitos do hospital de Bonsucesso. Ouvi – como quem vê boquiaberto o mar em silêncio – o seu discurso emocionado falando que quer ver os nossos Hospitais Federais sendo referência.

Eu estava na plateia que suava e sorria, como fazem aqueles que recebem um neto em casa.

Quando estive perto de você, percebi ainda nos seus olhos o reflexo do povo que ouviu o seu discurso. Você enxerga o Brasil, presidente. O tempo todo.

É impressionante testemunhar o que fica impresso na sua retina, presidente.

Não é caso para oftalmologista e sim para quem entende de coração.

Estar ao lado de quem tirou um país deste tamanhão do mapa da fome, que colocou tanta gente boa nas Universidades e que diminuiu drasticamente a mortalidade infantil já é motivo de um deleite infinito.

Sentir a força do bem é algo indescritível.

Você, meu presidente, devolve a esperança com um simples bom dia sorrindo emocionado andando pelos corredores de um hospital reformado.

Sigo, como sempre faço questão de repetir, a seu serviço.

Quando você me chama pelo meu nome no meio de uma multidão, vou ao seu encontro me sentindo a Beyoncé no palco descendo escadas com os cabelos esvoaçantes.

Sei o tamanho da minha sorte por ser reconhecida pelo melhor presidente que este país já teve.

Como não sou dessas de perder oportunidades, sempre falo em nome de muitas pessoas que não têm a mesma sorte que eu de poder te dar um abraço:

Obrigada por tanta dedicação e carinho com o povo brasileiro, presidente.

Seguimos ao seu lado.

❤️🌹

📷 Ricardo Stuckert

Vento de través

Há anos sonho em aprender a velejar. Algo me impedia: minha surdez. Só ouço bem com meus aparelhos auditivos e não poderia arriscar perdê-los no mar.

Minha agenda nunca coincidia com a de algum filho. Fora isso, o curso não é de um dia. No mínimo, dez horas para aprender o básico. Impossível conciliar nossos horários.

Sozinha não tinha como.

Não poderia contar com ajuda de mais ninguém que não fosse uma pessoa muito próxima que soubesse se comunicar comigo quando estou sem meus aparelhos.

Precisava de alguém que repassasse imediatamente a orientação do professor.

Nesse recesso de Janeiro, depois de anos, consegui que Pipo me acompanhasse e fosse, para além do meu amor, meus ouvidos.

Não foi fácil para ele. É muita informação. Pipo tinha que assimilar o comando e, antes de agir, transmitir para mim o que entendeu.

E estávamos falando um idioma novo: orçar, arribar, bombordo, boreste, bolina, leme, retranca, quilha, casco, vela… por vezes, eu entendia mas não me lembrava do que se tratava.

E tem mais:

Entre o que um professor fala e o que uma pessoa entende há um espaço que se assemelha a um tipo de abismo.

Entre o que uma pessoa entende e o que ela propaga logo depois para uma outra, há uma espécie de tradução onde deveria haver somente uma transmissão.

Mais um detalhe: em uma situação que temos que pensar, nem sempre conseguimos falar.

Ou seja, a função do Pipo não foi nada simples.

Erramos muito em vários momentos.

Chegamos a virar o barco e cair no mar. Nessa hora, era o homem gritando de um lado, o Pipo do outro e eu surdinha sem entender patavinas mas achando lindo ficar desesperada vendo o Pão de Acúcar.

Ao menos isso, pensei.

Se for para ficar perdida, abalada e confusa, que seja dentro de um Cartão Postal.

Conseguimos, com orientação e vontade de viver, desvirar o dingue.

Achei um luxo subir no barco no meio do mar sem ajuda de ninguém. Logo depois de ter feito tanta coisa errada, estava feliz porque meus bíceps responderam ao meu comando. Acho chique ter autonomia.

Enfim, ainda estou aprendendo e tentando compreender com meu corpo a lidar com o vento soprando em várias direções.

Essas são imagens da nossa primeira aula.

Minha intenção é conseguir autorização da Marinha para velejar sozinha. Para isso, há um chão a percorrer. Ou melhor, um mar a navegar.

Velejar contra o vento, coisa que a princípio, parece impossível, me fez compreender outras coisas como aqueles que têm epifanias. Para navegar em direção oposta ao vento, a trajetória em linha reta não é a solução. O zigue-zague com paciência é a chave. E vento em popa não é grandiscoisa. O melhor é vento de través.

Estou levando esses aprendizados para terra firme.